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Prefeito quer mudar letra do Hino Nacional – Parte II

novembro 24, 2007

Ora, se um prefeito desvairado de uma cidadezinha pode, porque eu também não?

Levando em consideração a liberdade artística sugerida pelo Senhor Prefeito de Araçariguama, eu também me sinto apto à sugerir as minhas próprias mudanças ao Hino. A começar pela música.

Convenhamos que nosso Hino Nacional não é lá grandes coisas em termos de representação musical do nosso povo, não é mesmo? Ouça aí uma mostra. Parece uma marcha de guerra onde os soldados retornam para suas casas vitoriosos. Brasileiros não vão pra guerra e abandonam o Brasil! Brasileiros levam o Brasil sempre consigo, não importa aonde vão. Somos um povo conhecido por nosso alegre, porém recatadíssimo, comportamento no exterior e como um povo alegre, pacífico e acima de tudo educado.

Deveríamos levar nós mesmos à Casa Civil a sugestão da música do hino (afinal outra qualidade do brasileiro é o exercício da cidadania, onde esse povo bronzeado e ativista está sempre pronto e disposto para lutar pelo que é seu junto às autoridades). Minha primeira sugestão seria algo em ritmo de bossa-nova, mas como a bossa tem origem no jazz norte-americano, achei pouco patriota. Funk carioca também foi excluído por ter raíz do Miami-beat. Acredito que o Maracatu seria uma escolha muito decente. De preferência atômico porque somos um país moderno. Outras sugestões são bem-vindas.

Vamos à letra agora. O Senhor Prefeito Carlos Aimar, como o músico escolado que provavelmente é, em sua sugestão de mudança, comprometeu por completo a métrica do verso, mas tanto quanto eu, o Senhor Prefeito Carlos Aimar deve estar também ciente dos meandros da liberdade artística e dos movimentos pós-modernos nas composições poéticas. Assim estabelecido esse parâmetro, sinto-me mui apto e disposto para sugerir essas mudanças:

“De um povo heróico o brado retumbante” para “O grito da galera”
“Brilhou no céu da pátria nesse instante.” para “Faz sol agora no Brasil”
“De amor e de esperança à terra desce, se em teu formoso céu, risonho e límpido,A imagem do Cruzeiro resplandece”

A idéia da terra descendo e os mares adentrando no território nacional, transformando o Brasil em uma nova Atlântida não é do meu agrado. Como isso não aconteceu ainda (mas quem sabe poderia acontecer com o Espírito Santo), podemos presumir que esse verso é uma profecia terrível e que devemos ficar atento a qualquer hora pelo Cruzeiro (a constelação e não a moeda) resplandecer em um formoso céu, risonho e límpido. Habitantes de cidades grandes e com um nível decente de poluição não precisam se preocupar. Na dúvida eu cortaria o verso inteiro para que a próxima geração de brasileiros não seja afligida pelo pânico dessa maldição. Não queremos o mesmo horror para os nossos filhos.

“Terra adorada, entre outras mil, és tu, Brasil, ó Pátria amada!”

Esse refrão me faz feliz porque traz mais vírgulas do que meus textos, mas “entre outras mil”? Considerando que o Brasil é um país e atualmente temos 194 países no mundo, que outras 805 terras seriam essas? Eu tentei pensar em algumas não catalogadas no Atlas Mundial: Terra do Nunca, Terra de Marlboro, Terra do Sol, Terra em Transe… mas não consigo chegar em 805.

“Deitado Eternamente em Berço Esplêndido”

Não me agrada mudar o ‘deitado’ para ‘abençoado’ porque seria uma redundância. Qualquer um eternamente em berço esplêndido já é um abençoado. Minha sugestão aqui é a inserção do termo ‘quase’ antes do ‘eternamente’. Assim evocamos a idéia recorrente (mas dessa vez em caráter internacional) de que o Brasil é um gigante adormecido.

“Fulguras, ó Brasil, florão da América,”

Esse eu deixaria para representar a classe gay cosmopolita brasileira.

“Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;”

Idem. Dessa vez para os homossexuais campestres.

“Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-louro dessa flâmula
– ‘Paz no futuro e glória no passado.’ ”

Esse verso é no mínimo confuso e só se justifica se o compositor, Francisco Manuel da Silva, fosse daltônico, míope e muito mal informado. O verde de nossa bandeira (‘flâmula’) não é verde-louro, é verde-bandeira. Eu achei que isso fosse óbvio. Verde-louro é roupa para gringo (“…E o verde louro chama-se costume” – W. B. Yeats em ‘Uma Prece Pela Minha Filha”). E onde está esse ‘Paz no futuro e glória no passado‘ na bandeira? Da última vez que eu li era ‘Ordem e Progresso‘. Preciso baixar uma nova versão?

Então acho que a nova versão do Hino (em Maracatu ou até Côco) poderia ser assim:

Novo Hino Nacional (ainda em beta)

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
o grito da galera!
Faz sol no Brasil agora.

(…)Terra adorada, entre outras 193, És tu, Brasil, Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil, Pátria amada, Brasil!

Deitado quase eternamente em berço esplêndido,
Ao som do mar e à luz do céu profundo,
Fulguras, ó Brasil, florão da América,
Iluminado ao sol do Novo Mundo!

Do que a terra, mais garrida,
Teus risonhos, lindos campos têm mais flores;
“Nossos bosques têm mais vida”,
“Nossa vida” no teu seio “mais amores.”

Ó Pátria amada, Idolatrada, Salve! Salve!

Brasil, de amor eterno seja símbolo
O lábaro que ostentas estrelado,
E diga o verde-bandeira dessa flâmula
– “Ordem e Progresso.

(…)

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